AVC: ameaça à saúde feminina

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A medicina dá cada vez mais atenção às particularidades das doenças cardiovasculares entre mulheres. Em 2007, a Associação Americana do Coração formulou as primeiras diretrizes específicas para prevenir essas enfermidades no sexo feminino — até então, as recomendações eram as mesmas para os dois gêneros. No último mês, um estudo da Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos, foi pioneiro ao identificar diferenças nos mecanismos que causam elevação da pressão sanguínea entre os sexos e sugerir que as mulheres recebam um tratamento mais enfático e precoce.

A Associação Americana do Coração deu mais uma contribuição à saúde cardiovascular feminina ao lançar uma cartilha inédita com instruções para diminuir o risco de acidente vascular cerebral (AVC) em mulheres. Até então, documentos relacionados à doença não diziam, por exemplo, que pressão alta durante a gravidez pode levar a complicações capazes de dobrar o risco de AVC ao longo da vida ou que a enxaqueca, mais comum no sexo feminino, também predispõe ao problema.

“Essas diretrizes chamam a atenção para uma causa de morte importante entre o sexo feminino. Fala-se muito em câncer de mama, por exemplo, mas é preciso lembrar que doenças cardiovasculares representam um sério risco para as mulheres”, diz Luiz Bortolotto, diretor da Unidade Clínica de Hipertensão do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP (Incor).

As doenças cardiovasculares são as principais causas de morte no mundo e no Brasil. Entre as enfermidades do sistema cardiovascular, a mais fatal aos brasileiros de ambos os sexos é o AVC: segundo os dados mais recentes do Ministério da Saúde, cerca de 100 000 pessoas morreram devido à doença em 2011, sendo que praticamente metade delas (49,5%) eram mulheres. O derrame foi causa de quase 10% de todas as mortes femininas naquele ano, e provocou mais do que o triplo de óbitos entre mulheres do que o câncer de mama (49 863 ante 13 225).

Olhar na mulher — Nas últimas décadas, as mulheres passaram a ficar cada vez mais expostas a fatores de risco ao coração que eram mais comuns entre os homens, como stress e tabagismo, aumentando o espaço das pacientes femininas entre o grupo de risco de doenças cardiovasculares.

“As mulheres compartilham com os homens muitos fatores de risco ao coração, mas têm outros aspectos que as tornam especialmente vulneráveis”, diz Monique Chireau, ginecologista e obstetra da Faculdade de Medicina da Universidade Duke, nos Estados Unidos, que ajudou a desenvolver as diretrizes. Entre esses fatores, estão complicações na gravidez, uso de anticoncepcionais, terapia de reposição hormonal e maior prevalência de enxaqueca e fibrilação atrial. Outro é o tamanho das artérias, menor que o dos homens, o que pode favorecer o estreitamento e obstrução dos vasos.

As diretrizes da Associação Americana do Coração, que são seguidas por médicos ao redor do mundo, devem ecoar no Brasil. Por aqui, ainda não existem recomendações específicas para a prevenção de doenças cardiovasculares em mulheres — o que há são capítulos dentro de cada medida para indicar particularidades do sexo feminino.

Diferença de gênero — Existe uma fase da vida da mulher em que a probabilidade de ser acometida por moléstias cardiovasculares é, de fato, menor do que a do homem — período que vai até menopausa, quando a produção de estrogênio diminui e, com ele, o efeito protetor do hormônio sobre o coração. “O risco cardiovascular após a menopausa passa a ser semelhante ou até maior do que o dos homens”, diz Carlos Costa Magalhães, diretor de Promoção da Saúde Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Das mortes femininas por AVC registradas no Brasil em 2011, mais de 90% ocorreram após os 50 anos de idade.

Muitas vezes, essa ameaça pós-menopausa é reflexo de uma série de fatores apresentados por uma mulher ainda na juventude, como pressão alta não tratada ou tabagismo. “O risco cardiovascular entre mulheres jovens não está sendo controlado tão bem quanto deveria. Por isso, as diretrizes estão voltadas principalmente para um período anterior à menopausa”, diz Magalhães.

Gravidez — Um dos principais pontos das diretrizes é a importância de prevenir e tratar de forma adequada a pré-eclâmpsia. O problema, que atinge entre 6% e 10% das gestantes, é caracterizado pelo aumento da pressão arterial e perda de proteínas pela urina na fase final da gravidez.  “A pré-eclâmpsia dobra o risco de AVC e quadriplica as chances de hipertensão ao longo da vida. Muitas mulheres e até médicos, porém, não estão cientes dessa associação”, diz Cheryl Bushnell, neurologista, diretora do Centro de AVC Centro Médico Wake Forest Baptist, nos Estados Unidos, e autora da nova cartilha.

As diretrizes recomendam que mulheres grávidas com pressão alta sejam tratadas com medicamentos para diminuir o risco de pré-eclâmpsia. “Há evidências de que a gestação pode servir de gatilho para um quadro de pressão alta que não se manifestou. É importante saber se a grávida tem histórico de hipertensão para que ela passe por um tratamento que diminua o risco de pré-eclâmpsia”, diz Bortolotto.

Além disso, a cartilha ressalta que pacientes com histórico da doença precisam receber acompanhamento médico mesmo depois de darem à luz, devido ao risco de derrame. “Essa doença é normalmente tratada na gestação e na hora do parto e, depois, a mulher segue uma vida normal. As novas diretrizes mostram que essa paciente precisa ser acompanhada de perto, e isso nunca foi feito adequadamente na medicina”, afirma Bortolotto.

Anticoncepcional — A cartilha da Associação Americana do Coração também sugere que os médicos devem medir a pressão arterial de suas pacientes antes de elas começarem a usar contraceptivos hormonais. Segundo o documento, mulheres que tomam anticoncepcionais e têm pressão alta correm maior risco de sofrer um AVC. A recomendação é um alerta para médicos e pacientes. Como muitas meninas começam a ingerir anticoncepcional cedo, nem sabem se têm pressão alta.

Ainda segundo as diretrizes, mulheres que sofrem crises de enxaqueca com aura não devem fumar. Essa seria uma norma para reduzir o risco de AVC. Entre pacientes com mais de 75 anos, a sugestão é a de que os médicos examinem o risco de terem fibrilação atrial, já que o problema, caracterizado por uma alteração no ritmo cardíaco, também pode levar a um derrame.

“Não é que o AVC seja o problema de saúde mais relevante entre pacientes do sexo feminino, mas a doença muitas vezes deixa sequelas devastadoras. As mulheres precisam ter cuidado redobrado com fatores de risco”, diz Carlos Costa Magalhães.

Mulheres contra o AVC

As diretrizes da Associação Americana do Coração para reduzir o risco de derrame entre mulheres

Gravidez

Segundo a Associação Americana do Coração, 3 em cada 10 000 grávidas sofrem um derrame durante a gestação. Entre mulheres que não estão grávidas, essa prevalência é menor, de 2 em cada 10 000. Para reduzir o risco: Mulheres grávidas devem ter sua pressão arterial controlada. Se a pressão estiver elevada, recomenda-se tratamento com remédios seguros que reduzem a pressão.

Pré-Eclâmpsia

A pré-eclâmpsia atinge entre 6% e 10% das gestantes e é caracterizada pelo aumento da pressão arterial e perda de proteínas pela urina na fase final da gravidez. Segundo a Associação Americana do Coração, o problema dobra o risco de AVC e quadriplica as chances de hipertensão ao longo da vida. Para reduzir o risco: Mulheres grávidas que se enquadram no grupo de risco devem tomar doses baixas de aspirina a partir do segundo trimestre da gestação. É o médico quem deve recomendar o tratamento.

Anticoncepcional

Pílulas anticoncepcionais podem até dobrar o risco de derrame, especialmente entre mulheres que têm pressão alta. Para reduzir o risco: Os médicos devem medir a pressão arterial de suas pacientes antes de elas começarem a usar contraceptivos hormonais. “Essa recomendação não significa que todas as mulheres com pressão arterial elevada estão proibidas de tomar pílula. A decisão deve ser tomada junto ao médico, que colocará na balança os pontos positivos e negativos da medida”, diz o cardiologista Luiz Bortolotto. Além disso, mulheres que começam a tomar anticoncepcional não devem fumar para não aumentar o risco de derrame.

Terapia de reposição hormonal

Embora evidências já tenham indicado que a abordagem reduz o risco de AVC, novas pesquisas mostram que, na verdade, essa terapia aumenta as chances. Para reduzir o risco: A terapia de reposição hormonal não deve ser recomendada com o objetivo de diminuir o risco de derrame em mulheres após a menopausa.

Enxaqueca com Aura e Tabagismo

Segundo a Associação Americana do Coração, o derrame é mais prevalente em mulheres que costumam sofrer crises de enxaqueca com aura e que também fumam. Para reduzir o risco: Mulheres que têm esse tipo de enxaqueca devem deixar de fumar.

Fibrilação Atrial

O problema, caracterizado por uma alteração no ritmo cardíaco, é mais comum em homens e mulheres com mais de 75 anos. De acordo com a Associação Americana do Coração, a doença aumenta em quatro vezes o risco de AVC. Para reduzir o risco: Todas as mulheres acima de 75 anos devem ser examinadas quanto ao risco de terem fibrilação atrial. O tratamento contra o problema pode ser feito com medicamentos ou cirurgia.

 

Fonte: http://veja.abril.com.br/

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